quarta-feira, 27 de agosto de 2014

David Bowie - The Next Day (2013)

Não tem como deixar passar em branco um super lançamento como este, né? Como você já deve estar sabendo, o cantor/ator/produtor/alienígena/camaleão/etc David Bowie apareceu depois de muito tempo sem dar qualquer notícia para lançar um novo álbum intitulado The Next Day, seu primeiro registro em dez anos. Após deixar o álbum no repeat por uma semana acho que já estou apto a falar sobre ele.
O cd abre de forma bastante forte com a faixa que dá seu nome. Um rock'n'roll energético e dançante com uma certa pegada Rolling Stonica, principalmente nas guitarras. Ouvindo a faixa me vem a cabeça a imagem de um show lotado, com o publico pulando e cantando enlouquecidamente. Uma música simples, mas grudenta e eficiente.
A sequência com Dirty Boys, The Stars (are out tonight) e Love is Lost é minha parte preferida do trabalho. Uma música melhor do que a outra. Enquanto a Dirty Boys transita entre o rock e o jazz, com seu acompanhamento de metais e seus tempos quebrados, The Stars... volta ao rock básico.  A música já ganhou um fantástico clip e é fácil de entender o porquê de ter sido escolhida como single. A guitarra sempre presente e sua estrutura em crescendo que explode no refrão tem tudo pra se tornar um dos grandes hits da carreira de Bowie. Já me peguei cantando ela alto no busão algumas vezes. Love is Lost fecha esse primeiro terço do cd de forma soberba com seu baixo pulsante, teclado altíssimo dando um aspecto sombrio para a música e guitarras distorcidas que surgem em ótimos fraseados e riffs. A linha vocal criada por Bowie confere um tom de urgência para a faixa.
Então vem o único ponto fraco do trabalho. Where are we now? é uma baladinha pra tocar em baile da terceira idade. Chata que só. E por falar em baladas, o cd tem mais algumas (felizmente bem melhores), como Valentine's Day, que poderia ter aparecido em algum LP antigo do inglês. Seu andamento e sonoridade remetem à um amalgama de músicas romanticas dos anos 60 e 80. Entretanto, a melhor balada do cd é a épica You feel so lonely you could die. Corais, pianos, cordas... a faixa podia ter descambado para a breguice, mas o cantor consegue fazer de tudo isso um momento genuinamente emocionante. 
Uma das músicas mais interessantes é a agitada If you can see me. A bateria dela parece ter sido inspirada pela fase drum and bass do camaleão (do álbum Earthling, de 1997), entretanto sendo tocada "organicamente". Extremamente trabalhada e criativa é sem dúvida uma de minhas preferidas do álbum.
I'd rather be high tem um andamento militar (mais ou menos como a Sunday Bloody Sunday do U2) e um bonito refrão. Boss of me reúne um monte de elementos de forma elegante. Guitarras, metais, partes mais paradas, outras mais agitadas, corais... tudo de forma orgânica e bem equilibrada. Já uma das mais alegres e dançantes é a Dancing out in space. 
How does the grass grow é uma das grande pérolas. Com um "quêzinho" de hard rock, a faixa traz linhas de teclado bacanas, bateria bem trampada e uma das onomatopéias mais divertidas dos últimos tempos. Te desafio a escutar a música e não ficar com esculaxados La la la las na cabeça. O solo de guitarra é outra coisa linda. E por falar em solo de guitarra, um dos melhores é da post-punk (You will) Set the world on fire, faixa que evoca Bauhaus todo o tempo.
A densa Heat fecha o trabalho. Se a faixa de abertura foi a escolha certa, a de fechamento também não poderia ser melhor. Lenta, depressiva e épica, Heat é hipnotizante. Coloque-a no fone de ouvido, feche os olhos e boa viagem pelas sensações e sentimentos que a música vai te trazer.
No alto dos seus 66 anos David Bowie ainda mostra como se faz. Dá um banho em um monte de bandinhas que se acham modernas e lançou um cd digno não só de sua própria discografia como também das famosas listinhas de melhores do ano. Na minha com certeza The Next Day vai estar.
Álbum: The Next Day
Artista: David Bowie
Lançamento: 2013

Lollapalooza - 30 de março de 2013


Este sábado fui ao festival Lollapalooza. Em primeiro lugar, achei o festival extremamente bem organizado. Quanto a estrutura dele não tenho nenhum ponto negativo para comentar, então vamos pro que interessa mesmo, os shows (só os que eu vi, obviamente)!




Tomahawk. Depois do Faith no More é a banda do Mike Patton que eu mais gosto.  Eu vinha acompanhando o setlist de shows anteriores dos caras e me surpreendi muito positivamente com o que apresentaram no Lolla. Começaram com a ótima Mayday e misturaram de forma bastante coerente músicas dos dois primeiros álbuns com algumas (muito bem escolhidas) do mais recente. Mas para mim o momento alto da apresentação foi a Totem, única representante do maravilhoso álbum Anonymous, apresentada por Patton como "música de macumba".

Quem já viu o vocalista a frente de qualquer uma de suas bandas já sabe o que esperar. Apesar de mais contido em relação às suas maluquices quando está com sua banda mais famosa, o cara é um frontman sem paralelos. O restante do Tomahawk também não fica pra trás, afinal o grupo é praticamente um dream team do rock/metal alternativo com Duane Denison (Jesus Lizard) na guitarra, Trevor Dunn (Mr Bungle) no baixo e John Stainer (Helmet) na bateria.

Em relação a banda não tenho dúvidas que foi um showzaço, porém, com pouca gente que conhecia/gostava dos caras na platéia acabou não sendo tão empolgante. Fico na expectativa de ver um show só deles, com mais tempo e mais fãs enlouquecendo ao meu lado.

Alabama Shakes. Me surpreendeu o número de gente esperando ansiosamente em frente ao palco. E todo mundo conhecendo e cantando as músicas! Nem parecia que estávamos diante de um grupo formado recentemente e que possui apenas um cd na bagagem. Quem disse que downloads ilegais são apenas prejudiciais para as bandas, hein?
O show foi excelente. É impressionante o quanto canta a vocalista Britanny Howard! 
Torço muito para que o Alabama Shakes continue evoluindo.

Queens of the Stone Age. Vou a shows faz 19 anos. Já vi de Alanis Morrissete à Brujeria e posso afirmar que poucas bandas são tão legais em cima de um palco como o QotSA. É muito peso, muita energia. Para mim, foi não só o grande show da noite como também um dos grandes shows que já presenciei na vida.
A banda se calcou no seu disco mais famoso, Songs for the Deaf, mas deu tempo de tocarem algumas surpresas como a inédita (e ótima) My God is the sun e a lisérgica Better living through chemistry.
Além disso foi a primeira apresentação do grupo com seu novo baterista, John Theodore, que é um monstro. A técnica e a brutalidade com que ele espanca sua bateria são impressionantes.
Claro que cada um tem suas preferências e outras pessoas podem ter gostado mais de outro show, mas a plateia mais empolgada e o show mais comentado do dia foi com certeza o do QotSA. 

A Perfect Circle. A difícil tarefa de tocar depois do QotSA. Apesar de adorar a banda e estar ansioso para vê-los reconheço que demorei umas 3 músicas pra entrar no clima da apresentação. Foi como sair de um jogo de Hóquei no gelo e ir ver um balé. 
Entretanto, passada essa minha fase de adaptação o que presenciei foi show lindíssimo. O segundo cd da banda, o Thirteenth Step, é um dos meus prediletos dentre os lançados no século XXI e ver aquelas músicas ao vivo foi uma emoção muito grande. Claro que faltou uma ou outra que eu gostaria muito de ter visto, mas o setlist dos caras foi incrível e a execução das músicas idem.

The Black Keys. O guitarrista/vocalista Dan Auerbach e o baterista Patrick Carney mostraram boa presença de palco, muita simpatia e tinham um setlist matador em mãos. Mas alguma coisa não estava certa. Faltou um pouco de pegada ao show. 
Atribuo isso a dois motivos em especial. O primeiro foi o som. Como o headliner do dia pode ter o pior som? Desregulado e baixíssimo, só consegui ouvir alguma guitarra depois de umas 4 ou 5 músicas. O que eu mais ouvi durante a apresentação da banda foi o cara do meu lado contando pra uma amiga que tinham roubado o celular dele. Isso por si só já era motivo para estragar a minha experiência. 
O segundo motivo: talvez o The Black Keys não seja uma banda para tocar para multidões. Acompanho os caras faz alguns anos e até pouquíssimo tempo atrás eles eram uma banda que devia tocar em lugares para 1000 ou 2000 pessoas. Não estou tendo síndrome de underground aqui, acho ótimo que mais gente esteja conhecendo e apreciando o competentíssimo blues rock da dupla, era uma banda que estava faltando no mainstream, mas acredito que o tipo de som que eles fazem ficaria melhor num ambiente menor e mais intimista, com um público que conhecesse mais da história deles e não apenas Lonely Boy. 
Em resumo, o show foi bom, mas poderia ter sido melhor.

As aventuras de Tintim


A nona arte sempre esteve presente em minha vida. Como muitas crianças brasileiras eu lia muita Mônica, Cebolinha e toda a turma criada por Maurício de Souza. Uma coisa leva a outra, e logo fui apresentado aos quadrinhos do bárbaro gaulês Asterix e do repórter belga Tintim, colecionando vários volumes desses quadrinhos por volta dos meus 10-12 anos. Gostava de ambos personagens, mas meu fascínio maior era pelas aventuras do topetudo e seu cachorro Milú, com suas pitadas de mistério, intrigas internacionais, humor, ação e até ficção científica.
Tintim e seu fiel amigo Milu
O personagem foi criado pelo belga George Remi, que utilizava o pseudônimo Hergé, e teve sua primeira aparição em 10 de janeiro de 1929, no suplemento infantil do jornal Le Vingtième Siècle, sendo uma evolução de um personagem anterior de Hergé, o escoteiro Totor. Apesar de, ao menos à principio, a série ser direcionada à crianças, o autor sempre trouxe temas adultos aos seus quadrinhos. Assim, ao lado de situações cartunescas, personagens caricatos e com nomes como General Tapioca, podemos encontrar temas como tráfico de drogas, guerra, espionagem, assassinatos e máfias. Ao mesmo tempo que os Dupond escorregavam em cascas de bananas, o protagonista era capaz de pegar em armas e arriscar a vida em revoluções na América do Sul e no oriente.
A primeira fase do personagem é hoje vista de forma polêmica. Em álbuns como Tintim no país dos Sovietes, Tintim no Congo e Tintim na América, as histórias passam visões eurocêntricas e preconceituosas de seu criador. O mais discutido trabalho desta época é, sem dúvida, aquele em que o personagem vai para a então colônia belga. Retratando o povo local como ignorantes e usando traços estereotipados nos personagens negros, o álbum é hoje tema de discussão por seu suposto racismo. Anos mais tarde Hergé se desculpou, dizendo ser a história produto do ambiente e das informações que chegavam a ele em sua juventude.
Mais uma polêmica se deu quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha nazista. Impedido de publicar suas histórias no Le Vingtième Siècle, Hergé passa a ter seus personagens frequentando páginas de jornais nazistas. Entretanto, é possível perceber no álbum "O cetro de Ottokar", publicado durante esses anos, uma clara alegoria à posição anti-expansionista que o quadrinista imprime em sua história.
A grande virada do personagem se deu na história O Lótus Azul, de 1936. Durante a escrita, Hergé se tornou amigo do estudante chinês Zhang Chongren, que supervisionou toda a concepção da história e retratação de seu país natal. Considerada uma das obras primas do autor, O Lótus Azul marcou um imenso salto de qualidade nos trabalhos por ele produzidos. À partir deste ponto Hergé se livrou de preconceitos e passou a fazer um grande trabalho de pesquisa sobre cada lugar que utilizava em suas histórias. Sua habilidade como roteirista (passando a substituir histórias segmentadas e a tremenda sorte do protagonista por  argumentos mais intrincados) e sua técnica como desenhista também evoluíram enormemente. Seu traço limpo e a presença de ambientes altamente detalhados se tornaram uma marca registrada e foram influência para todas as gerações de desenhistas posteriores.
Alguns dos álbuns de Tintim
Nesta fase vieram as histórias que se tornaram verdadeiros clássicos dos quadrinhos. Aventuras a la Indiana Jones, O ídolo roubado, As 7 bolas de cristal e O Império do Sol, conspirações como em No país do Ouro Negro, A Ilha Negra e O Caso Girassol e ficção científica como em Rumo à Lua, Explorando a Lua e A Estrela Misteriosa.
Hergé e seus amigos
Caso você não tenha acesso às HQs e quiser conhecer o trabalho de Hergé, a melhor forma é através da série animada franco-canadense produzida pelas empresas Nelvana e Ellipse Animation no início dos anos 90. Dividindo as histórias em 39 episódios distribuídos por três temporadas, foram produzidas adaptações para todos as HQs, com exceção das duas primeiras, Tintim no país dos Sovietes e Tintim no Congo, além da inacabada história Tintim e a Alfa-arte. Acredito que esta série foi uma das mais bem sucedidas transições de mídia que já tomei contato. Utilizando as cores e traços (da fase mais desenvolvida) de Hergé, os desenhos traziam histórias praticamente Ipsis litteris daquelas encontradas nos álbuns  Mudanças aqui e ali, algumas pequenas adaptações e até melhoria o desenvolvimento de alguns pontos da trama (em uma história, por exemplo, Tintim escapa de um sequestro usando um serrote para sair de um carro, no desenho trocaram o serrote por um canivete, objeto infinitamente mais plausível de ser carregado no bolso por qualquer um) foram feitas de forma extremamente competente.
Hergé conseguiu dar vida a um universo único, entre o real e o cartunesco, entre o infantil e o adulto, fazendo de seus personagens ícones dos quadrinhos europeus. Não à toa, mesmo tantos anos após sua morte, Tintim, Milu, Capitão Haddock, Professor Girassol, os Dupond e tantos outros personagens se mantém vivos e queridos por legiões de fãns.

Gravidade - Tess Gerritsen


 Dentre todas as pessoas que já conheci na vida, meu pai é a pessoa que mais lê. A mesa da sala dele vive lotada de livros, coisa linda de se ver. Em geral, ele comenta muito pouco comigo sobre os livros que está lendo, talvez por nossos gostos não serem tão parecidos, mas certa vez ele me mostrou este Gravidade, de Tess Gerritsen, e me garantiu "você gostaria bastante deste aqui". Passou algum tempo, mas finalmente li o volume. E não é que é adorei mesmo o dito cujo? O livro é uma ótima combinação de gêneros. A princípio é um thriller médico, mas com contornos de uma história policial e elementos de ficção científica, principalmente por se passar, em grande parte, na Estação Espacial Internacional, a ISS.
A autora norte-americana, filha de imigrantes chineses, é formada em medicina pela Universidade da Califórnia, por isso boa parte de seus livros é composta por thrillers médicos como este. Sua primeira publicação foi o conto "On Choosing the Right Crack Seed" que ganhou o primeiro prêmio em um concurso promovido por uma revista. Seu romance de estreia saiu em 1987 e desde que alcançou sucesso como escritora ela tem se dedicado apenas a isso, deixando a carreira como médica de lado.
 A primeira analogia que me veio a cabeça ao ler Gravidade foi "e se o Dr House estivesse em Alien, o oitavo passageiro?". Guardadas as devidas proporções é exatamente esta a proposta de Gravidade, mas ao invés do famoso ranzinza e sua equipe, o livro traz como personagens principais os médicos Jack McCullum e Emma Watson, um ex-casal. Ambos os personagens fizeram treinamento na NASA, mas apenas Emma conseguiu de fato se tornar uma astronauta, uma vez que Jack já teve pedra no rim, uma condição médica que o impossibilita de permanecer em microgravidade segundo as normas da agência espacial. A história começa com a ida da Dra Watson à ISS, onde ela logo enfrenta uma grande crise quando um de seus companheiros adoece gravemente e ela, como médica à bordo, deve, além de cuidar de seu paciente, tomar importantes e difíceis decisões.
A simpática Tess Gerritsen
Assim como os mestres Asimov e Clarke, Gerritsen tenta ancorar sua história em ciência real, tendo em sua vantagem o fato da mesma se passar nos dias atuais, não em um futuro distante, e em veículos e estações que existem de verdade. Cada capítulo é recheado de informações interessantíssimas sobre a vida dos astronautas e todo dia-a-dia da NASA, acredito até ter sido este o aspecto que mais me fascinou na obra. Mas diferentemente das histórias contemplativas e filosóficas destes autores clássicos da ficção científica, Tess conduz aqui uma história frenética, lotada de cenas empolgantes, desde o primeiro capítulo, que se passa em submarino, até sua conclusão. Assim, o livro não é indicado apenas para nerds aficcionados por ficção científica hard, mas também para quem gosta de aventuras com correrias contra o tempo, mistérios e desafios a serem superados pelos personagens.
A autora consegue transmitir todo o desenvolvimento da ação de forma clara e fácil e as imagens se formavam automaticamente na minha mente. O livro é um roteiro pronto para o cinema, lendo-o me sentia como vendo um filme durante todo o tempo. Acredito que o único motivo da publicação não ter sido levada às telas é o fato de que os ônibus espaciais, tão importantes no desenvolvimento da história, foram aposentados poucos anos após seu lançamento (1999). Ainda assim, se eu fosse produtor de Hollywood, apostaria fácil em uma adaptação para as telonas.

O Incal - Moebius e Jodorowsky:



Tudo o que eu sabia sobre Incal (Devir Editora, 2012) antes de lê-lo é que era um dos grandes clássicos da nona arte. Mal tinha ideia de que durante a leitura eu seria jogado em um mundo ciberpunk e psicodélico enquanto acompanhava as rocambolescas e oníricas desventuras do detetive John Difool depois que este recebe o misterioso (e poderoso) artefato Incal das mãos de um alienígena moribundo e se vê em meio à revoluções e conspirações pelo controle da galáxia do império humano. Meu interesse pela obra veio, à princípio,  unicamente por conta de seu desenhista, Moebius, pseudônimo do francês Jean Giraud, falecido ano passado. 
Jean começou sua carreira em HQs de faroeste, mas ficou mais conhecido pela criação da revista Metal Hurland (ou Heavy Metal, em sua versão norte-americana) e por seus trabalhos em quadrinhos de sci-fi e fantasia. Moebius também é largamente conhecido por ter trabalhado como designer de produção em filmes como Alien: O Oitavo Passageiro, Tron, Mestres do Universo,Willow, O Segredo do Abismo e O Quinto Elemento, entre outros.
O roteiro da HQ é de Alejandro Jodorowsky, chileno nascido na cidade de Iquique, dono de inúmeros talentos. Renomado escritor, poeta, psicólogo e cineasta, foi justamente em uma produção de cinema que Alejandro começou a trabalhar com Jean Giraud. Ambos deram início a produção de uma adaptação do livro Duna, de Frank Herbert, uma década antes daquela realizada por David Lynch. Dois anos de trabalho depois e o projeto colapsou. Entretanto, foi o contato de ambos artistas em meio à ficção científica que deu o ponta pé inicial em Incal, que acabou sendo escrito durante toda a década de 1980.
Longe do estilo poético de Neil Gaiman ou de Alan Moore ou mesmo das aventuras noir engendradas por Mike Mignola, o Incal parece uma imersão completa dentro de um brainstorm regado a LSD feito por Jodorowsky e Moebius. Cada página trás, sem nenhum pudor, novas situações, personagens, criaturas, mundos e desafios. Desafios estes que são superados rapidamente, como se os autores pensassem "Porquê perder tempo com isso? Ainda temos tanto a mostrar!". Em Incal o importante é a viagem, não o destino.
Moebius e Jodorowsky: Produtores de LSD em forma de quadrinhos
E assim se descortinam inúmeros personagens em que, mais do que suas personalidades, são seus interessantes nomes (Imperadortriz, Necrodroid, Meta-barão, Tecnopapa...) e suas criativas figuras que chamam a atenção e se tornam marcantes. Não só personagens humanóides, mas planetas, naves, cidades, animais e tudo que saiu do maravilhoso e detalhista traço de Moebius e da mente influenciada por Tarô de Jodorowsky (o personagem principal, por exemplo, é baseado na carta do Louco) é fascinante. É impossível virar a página antes de se admirar por uns bons minutos cada pequeno detalhe que ali se encontra. 
Assim, Jodorowsky e Moebius levam seus leitores por mais de 300 páginas que exploram de uma decadente capital à outra galáxia, passando por um planeta aquoso, pelo interior de um mundo e por bizarras viagens metafísicas.
Não é dificil se perder na trama. Conspirações, revoluções, guerras entre galáxias... parece acontecer de tudo durante a história. Em certo momento eu já começava a temer por uma "sindrome de Lost" na HQ. Ou seja, pensei que os criadores do quadrinho, assim como aqueles do famoso seriado de TV, de tantos mistérios e reviravoltas iam acabar se perdendo e trazendo um final qualquer para sua história. Ledo (e feliz) engano. Em Incal acontece justamente o contrário, conforme avançamos no encadernado as pontas que pareciam soltas e sem propósito começam a se juntar, até que chegamos à um final excepcional.
Mais do que uma história em quadrinhos, Incal é um grande exercício de imaginação e criatividade de duas grandes mentes. Imperdível.

Duas vezes Asimov

Isaac Asimov é muito provavelmente o nome mais famoso da literatura de Ficção Científica. Não é a toa. Este russo naturalizado estadunidense escreveu e editou mais de 500 livros dentre ficção e não ficção, tendo obras lançadas em praticamente todos os campos do conhecimento humano. Entretanto, o "bom doutor" é mais conhecido mesmo por suas histórias sobre robôs (especialmente o clássico Eu, Robô) e a premiada trilogia Fundação. Gosto muito destes livros, mas meus preferidos até agora, dentre tudo que li dele, são Os Próprios Deuses e O Fim da Eternidade.
Isaac Asimov: ótimas ideias e costeletas
Ficção científica é um termo para descrever qualquer livro ou filme que inclua em seu enredo o fator ciência como componente essencial. Há assim certa discussão sobre determinadas obras. Por exemplo, toda a saga Star Wars se passa em mundos estranhos, há a presença de elementos futuristas como naves e robôs (ou melhor, Droids), mas a história está mais para uma aventura ou fantasia do que para a ficção científica em si. Pode-se discutir sobre a essência de muitas obras, mas se há um livro que é ficção científica pura, este é Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov.
Os Próprios Deuses é uma história dividida em três grandes atos. No primeiro acompanhamos a descoberta do elemento Plutônio 186, um elemento impossível de existir em nosso universo, e suas aplicações e implicações na sociedade. Ok, você já viu inúmeros personagens de sci-fi pegando espantados algum objeto e dizendo  "este material não existe na Terra!". Asimov levou este conceito anos-luz a frente de seus colegas. É detalhada toda a descoberta do elemento. Se você tiver algum conhecimento de química e física, em especial sobre química analítica, leis da termodinâmica e interações nucleares, vai se extasiar com as longas explicações científicas e debates entre os personagens do livro.
Através do estranho isótopo é descoberta a existência de um universo paralelo ao nosso, onde as leis da física são ligeiramente diferentes. Lá vive outra civilização que tem muito interesse na troca de metais entre os universos como forma de obter energia. O cientista Dr. Frederick Hallam é aclamado como o descobridor do Plutônio 186 e vira uma grande celebridade mundial devido a construção da "bomba de eletróns", responsável pela transmissão de energia entre os mundos paralelos. Entretanto há quem desconfie que ele não seja este grande gênio e que a energia não é tão segura quanto se pensa.
O segundo ato traz a mais genial descrição de alienígenas que já li ou vi. Passado inteiramente no Para-Universo, esta parte da história descreve a vida de seres completamente diferentes de tudo que você conhece. Nada de humanóides ou seres baseados em insetos ou répteis. Os para-homens são seres de uma dimensão onde as leis da física são ligeiramente distintas das nossas, assim seus corpos e sua organização social são também distintas. 
Os para-homens são divididos em dois grupos, os Suaves, com suas tríades formadas por três "sexos", e os misteriosos e mais avançados Durões. No livro acompanhamos a tríade formada pelo Paternal Tritt, pelo Racional Odeen e pela Emocional Dua. Em cada tríade cada um tem suas características bem definidas, entretanto nesta, Dua é considerada uma aberração, uma "emo-esquerdista", ou seja, um ser do grupo Emocional, porém com características de Racional. É Dua quem acaba descobrindo os perigos da "bomba de posítrons" deste universo e tenta acabar com a mesma.
O terceiro ato volta pra o nosso Universo, mais especificamente para a Lua, onde um antigo rival de Hallam, o também cientista Dr. Benjamin Allan Denison tenta restabelecer sua carreira arruinada pelo famoso "pai da bomba de elétrons" enquanto tenta achar uma solução para os perigos da mesma.
O livro, tido pelo próprio autor como seu preferido, é uma das obras de ficção científica mais criativas e bem escritas que já tive em mãos. Indicado para quem se interessa por ciência real.
O Fim da Eternidade é uma história sobre viagens no tempo. O personagem principal, Andrew Harlan, é um Técnico da Eternidade, uma organização que existe "fora do tempo", empenhada em fazer ajustes de realidade em determinados momentos para que a humanidade evolua sem maiores conflitos e sofrimentos. Porém os Técnicos não andam livremente pelos séculos. Idas ao Primitivo, como são chamadas as Eras antes da criação da viagem do tempo, são proibidas. E de alguma forma inexplicável eles não conseguem adentrar entre os séculos LXX e CL. Viagens após o século CL encontram um mundo sem nenhuma civilização.
A vida de Harlan se complica quando se apaixona por Noÿs Lambent, uma mulher que será apagada da existência por uma intervenção em seu século natal. Ao mesmo tempo o Técnico se descobre responsável por um paradoxo temporal que dará a origem à própria Eternidade. 
O livro traz uma das melhores e mais originais histórias sobre viagem que já li, levando mais em conta a viagem em si do que os próprios tempos para quais os viajantes vão. Ao contrário d'Os Próprios Deuses, O Fim da Eternidade é uma obra que acredito que poderia funcionar de forma excepcional nas telas, se conduzida por um bom diretor. Aventura, romance e conspirações numa sólida história de sci-fi com um final surpreendente. Recomendo fortemente não só para amantes do estilo, mas para todos os leitores em busca de uma grande história.

Meus shows em 2012


Sobre isso não dá pra fazer uma lista de melhores, já que fui em apenas quatro, mas não custa comentar um pouquinho sobre eles, certo?

Morrissey (7 de março, Chevrolet Hall, Belo Horizonte)

Não conheço tanto da carreira solo dele, sou mais fã do The Smiths mesmo, mas essa era uma apresentação imperdível. O inglês é um símbolo do post punk oitentista, ultra carismático e um dos melhores letristas da história do rock. O público, mais eclético impossível, vibrou o tempo inteiro, dando coro às 18 canções apresentadas pelo vocalista, em especial nas do The Smiths, é claro.
A banda injetou bastante peso às músicas, em especial na Meat is Murder, que virou praticamente um heavy metal.
Belíssimo show.

Meschiya Lake and The Little Big Horns (5 de agosto, Festival I Love Jazz - Praça do Papa, Belo Horizonte)

É muito provável que você nunca tenha ouvido falar da Meschiya Lake, então aproveito para apresenta-la a você agora. Meschiya Lake é uma cantora de jazz de New Orleans que começou a cantar aos 9 anos, inclusive ganhando prêmios em competições onde concorria com adultos. Com mais alguma idade passou a integrar bandas e a se apresentar nas ruas de sua cidade com intuito de juntar algum dinheiro para gravar seu primeiro cd. Em 2009 fundou a banda The Little Big Horns com quem gravou o excelente álbum de estreia, The Lucky Devil, em 2010.
A cantora faz um estilo pin up from hell, com suas tatuagens e atitude rock'n'roll em cima do palco, mas seu maravilhoso vocal é utilizado no mais puro jazz tradicional de New Orleans. Apesar de ser uma desconhecida para provavelmente uns 99% das 10 mil pessoas que estiveram no festival (gratuito, diga-se), a empolgação e encantamento que ela e sua virtuosa banda provocaram em toda a plateia eram palpáveis.
Espero ansioso por seu segundo cd e, quem sabe, por mais algum show aqui no Brasil. Recomendadíssima!

Alanis Morrissete (9 de setembro, Chevrolet Hall, Belo Horizonte)

O público mineiro tem uma particularidade. Todo mundo chega ao local do show faltando pouquíssimo para ele começar, ou mesmo após o início da apresentação. Eu, como bom paulista apressado, acho isso estranho. Até dois minutos antes da luz se apagar estava parecendo que ia ser um fracasso de público, mas então brotou gente por tudo quanto é lado e o Chevrolet Hall ficou bem cheio, principalmente de casais (como era o meu caso) ou de mulheres na faixa dos 25 a 35 anos.O bom é que com essa particularidade do público sempre consigo chegar perto do palco. Neste show não foi diferente, como cheguei 30 minutos antes do início da apresentação praticamente encostei na grade. 
Alanis é a simpatia em pessoa. Se apresenta sorrindo o tempo todo, enquanto anda freneticamente de um lado para o outro do palco. Isso quando não usa seu lindo cabelão em brutais headbangings. Sim, você leu isso mesmo. Tenho uns quase 20 anos de experiência em shows de heavy metal e posso afirmar, Alanis faz bonito em matéria de agitar a cabeça. Divertido era olhar em redor e ver algumas meninas, que alguns classificariam como patricinhas, bangueando ferozmente, como se estivessem em um show do Slayer.
A canadense veio promover seu mais recente álbum, Havoc and Bright Lights, que teve suas músicas bem aceitas pelo público, mas foi nas músicas mais antigas, em especial as do Jagged Little Pill em que ela colocou o Chevrolet Hall abaixo. Ótima apresentação.

Robert Plant (20 de outubro, Expominas, Belo Horizonte)

Ah, Robert Plant! Na minha opinião, o Led Zeppelin foi a melhor banda de rock do sistema solar e a carreira solo do seu ex-vocalista é também maravilhosa. Pense em como eu estava ansioso por este show. 
O Expominas foi um lugar que, na minha avaliação, foi de 8 à 80 durante o show. Ou melhor, de 80 à 8. Ao chegar lá achei muito bacana. Estacionamento próprio com um preço não abusivo, lugar grande e espaçoso, bons bares e banheiros, palco grande, iluminação legal... E então, os problemas: som ruim, tudo saia muito abafado das caixas e, principalmente, a saida do local. Existia apenas uma escada para o estacionamento, e as (sei lá) 10 mil pessoas tinham que passar duas a duas por ela. Foram duas horas de show e depois mais duas para eu conseguir sair do Expominas, literalmente.
Bom, mas vamos falar de Robert Plant e da banda que o acompanhava, a Sensational Space Shifters. Foi realmente sensacional! Claro que Robert não tem mais a potência vocal de quando tinha seus 20 anos, mas ele ainda canta muito e vê-lo em cima de um palco, para quem gosta de rock, é uma coisa emocionante. 
A banda é excelente e consegue acompanhar todas as nuances das diversas facetas musicais de Plant. Do blues de raiz às modernices eletrônicas, passando pelo folk e pelo rock. A inclusão do africano Juldeh Camara tocando exóticos instrumentos daquele continente só acrescentou à apresentação, dando um toque de world music ao show.
Claro que o público se empolgou mais durante as 8 músicas do Led que o cantor colocou em seu setlist (em versões, na maioria das vezes, bem diferentes das originais), mas quem foi de cabeça aberta pode se deliciar com uma apresentação irrepreensível de um dos maiores músicos da história do rock'n'roll. Duas horas épicas que nunca sairão da minha mente.

Os shows que mais me chatearam não ter comparecido foram o do Paradise Lost e o do Mark Lanegan. Uma pena, ficam pra outra oportunidade.
Além disso, achei inacreditável não haver o Festival Maquinária no Brasil. O festival ocorreu por toda a América Latina, menos por aqui. Eu estava empolgadíssimo com a possibilidade de ver o Mastodon, mas também ficou pra depois.

Que 2013 traga mais ótimos shows como esses!